terça-feira, 12 de junho de 2007

Do abstrato ao palpável


Não o conheço. Dizem que trabalha nas ruas do Parque da Redenção e, às vezes, é visto desenhando na rua dos Andradas no centro da Capital Gaúcha. Com sua humilde -porém não menos importante – expressão, dedica-se a isso. Dedica-se a provocar no indivíduo uma alteração de tamanha magnitude que o faça parar e assistir à criação de sua obra. O artista está a desenhar efeitos num céu azul sobre um castelo medieval. Acho apaixonante ver uma pessoa com esse dom: o dom de desenhar. O dom de construir uma imagem com as próprias mãos, de passar uma idéia abstrata a um meio físico, palpável. Este homem escolhe uma superfície conveniente, arma-se com suas ferramentas e começa uma luta implacável contra a tendência à desordem. Pincel, giz e outros utensílios o ajudam a organizar elementos que teimam em se perder no mar de idéias que da cabeça emergem. As figuras vão tomando forma aos poucos. Começa com algumas linhas de referência. Desenha o croqui como o arquiteto. Faz o esqueleto e vai recheando-o com tijolos, sacadas, paisagens, céus abertos e fechados, claros e escuros; cria pássaros, campos de flores, nuvens, milhares de elementos que surgem em sua cabeça e que ele, num domingo qualquer de um outono recente, os traz à realidade para compartilhá-los com todos nós.
Sentado junto aos seus materiais o homem se expressa. Parece feliz. É um artista. Ama! Ama a arte e desenha por amor a ela. O homem que não tem palco, a não ser a vida, se escreve no lugar mais trivial e democrático de todos: a rua. A sua generosidade extrapola qualquer qualidade humana.
A vida não lhe deu oportunidades. O mundo, o terceiro, se fecha perante a arte. Não gosta dela. Não a entende. Poucos falam o idioma dela, e são esses poliglotas que se detêm ao lado do artista para apreciar sua obra. Os artistas, heróis que lutam para manter a cultura e a livre expressão numa época onde o bombardeio das informações tenta o contrário, conseguem chamar a atenção dos coadjuvantes desta sociedade que teima em ser a protagonista de uma realidade infeliz.
Todos os domingos, como num ritual religioso, esse desenhista escolhe um lugar numa rua do Parque da Redenção, na Capital Gaúcha, e deixa ali seu legado, sua mensagem. Ele se senta, chega à sua máxima expressão e vai embora, provavelmente para outra rua, ou quiçá para sua casa. Não importa, a questão é que, no meu inofensivo egoísmo, quero que volte e que, mais uma vez, deixe na calçada de uma rua qualquer da cidade, num outono próximo, sua máxima inspiração. Quero que ame a arte novamente e, assim, novamente, escreva num chão sujo imagens belas que nos afagam a alma.
Desta vez não há textos de escritores.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom!!!!!!!!!!!!!!!!

Morena disse...

Bueno, panchito, muy bueno. belo texto para uma bela foto....
saudades de vcs! beijos